Promoção e prevenção em saúde suplementar: as lições da Afrafep Saúde na voz de Cintia Dilay 

A promoção e prevenção em saúde suplementar deixou de ser um item acessório na estratégia das operadoras. Ela virou um dos caminhos mais concretos para equilibrar sustentabilidade financeira e qualidade assistencial. Foi exatamente esse o fio condutor da participação de Cintia Dilay, sócia e COO da AgileCare, no 3º Seminário Afrafep Saúde, realizado no dia 27 de agosto, em Cabedelo (PB), sob o tema “Saúde Sustentável: Responsabilidade Compartilhada”. 

Além de integrar o painel “Estratégias para um Futuro Sustentável: Qualidade Assistencial com Uso Inteligente dos Recursos”, Cintia foi convidada para o Conexão Afrafep, podcast do Afrafep Saúde e do Afrafep Social, em uma conversa conduzida pela jornalista Luana Menezes. A Afrafep Saúde, autogestão ligada aos auditores fiscais da Paraíba, é cliente da AgileCare, e boa parte da reformulação do setor de promoção à saúde da operadora reflete a forma como a AgileCare trabalha: diagnóstico primeiro, programa depois. 

Neste artigo, reunimos o essencial dessa conversa. Um conteúdo autoral, prático e direto ao ponto sobre como a saúde preventiva sustenta operadoras de saúde no médio e no longo prazo. 


Promoção e prevenção: dois conceitos diferentes que se somam 

Uma das primeiras coisas que Cintia esclarece é que promoção e prevenção não são sinônimos. Um conceito soma ao outro, mas não substitui. 

A promoção à saúde acontece independentemente de fatores de risco ou de doenças já instaladas. O objetivo é criar condições para que as pessoas vivam de forma mais saudável e com mais qualidade de vida, por meio de hábitos como atividade física e alimentação equilibrada. 

Já a prevenção atua sobre quem já tem algum fator de risco ou alguma doença instalada, com foco em evitar o surgimento de novas doenças e o agravamento de complicações. 

Nas palavras dela: “Promoção acontece independente dos fatores de risco, independente das doenças. O objetivo é trazer condições para as pessoas viverem mais saudáveis. Já a prevenção, a gente trabalha com pessoas que já têm algum fator de risco instalado ou alguma doença instalada”. 

Em uma carteira de plano de saúde sempre existem três grupos ao mesmo tempo: pessoas saudáveis, pessoas com fatores de risco e pessoas já doentes. Promoção e prevenção, quando bem estruturadas, alcançam os três. 

Por que a prevenção sustenta o plano de saúde 

A conexão entre prevenção e sustentabilidade é direta. Uma população mais saudável usa menos o plano para tratar doenças e passa a usá-lo mais para manter saúde e bem-estar. No médio e no longo prazo, isso significa menos internações, menos exames e mais previsibilidade de custo. 

Cintia é franca sobre o que observa no mercado: muitos planos ainda não trabalham promoção e prevenção e acabam pressionados pela conta assistencial. “Está lá, com muita conta médica, muita internação, muito exame, mas não consegue parar para olhar para a promoção e para a prevenção”, resume. 

Ela fala com a autoridade de quem já viveu isso por dentro. Em uma operadora onde atuou por anos, a saúde preventiva era estratégia. No começo, a própria diretoria questionava se aquilo trazia retorno financeiro. O papel dela foi demonstrar que sim, que a prevenção gera resultado financeiro, além de todos os outros benefícios para o beneficiário. 

O resultado apareceu com o tempo. A população envelheceu dentro do plano, mas envelheceu cuidada, e passou a internar menos. Ela cita como referência de mercado uma taxa de internação em torno de 10% ao ano na população geral, com um índice ainda menor entre os idosos bem acompanhados. A lógica é clara: quando alguém olha para a saúde da pessoa, e não só para a doença, o beneficiário ganha anos de vida, bem-estar e disposição, e o plano ganha em menor custo assistencial. 

O modelo assistencial começa na estratégia, não no guia médico 

Para Cintia, promoção e prevenção não deveriam ser um programa isolado colado por cima da operação. Deveriam nascer no plano estratégico da operadora, dentro do próprio modelo assistencial. 

“Os planos hoje são muito guia médico e doença, tratar doença. Na sua estratégia, ele tinha que ter, primeiramente, promover saúde e prevenir doenças”, afirma. Ou seja: antes de pensar na rede de cardiologista, endocrinologista e hospital, o modelo precisa contemplar como aquela população vai ser cuidada para não adoecer. 

Essa é a virada de chave que separa uma operadora que apenas reage às contas de uma operadora que constrói sustentabilidade de forma intencional. 

O caso Afrafep Saúde: diagnóstico antes do programa 

Quando chegou à Afrafep Saúde para reformular a área de promoção à saúde, Cintia não começou criando programas. Começou entendendo a operadora. 

O ponto de partida foi um diagnóstico completo: quem é a Afrafep, quem são seus beneficiários, como está estruturada a rede credenciada, quais são os objetivos com os programas. “Geralmente as operadoras vão montando programas sem ter uma visão diagnóstica e um plano de ação estratégico”, observa. Esse é um erro comum, e caro. 

Do diagnóstico saíram duas constatações. A primeira: a Afrafep tem uma população mais envelhecida, com 33% de idosos. A segunda: a operadora possui um ativo valioso, seu centro médico e a equipe multiprofissional que atua nele. 

A partir daí, a estratégia foi aproveitar esse ativo e mudar o papel do centro médico. Ele deixa de ser apenas executor de consulta ou de sessão e passa a atuar como gestor e coordenador do cuidado. Alguns programas foram criados do zero, outros já existiam e passaram por reformulação, sempre respeitando a jornada real do beneficiário dentro da operadora. 

Os programas: cuidado organizado por perfil de beneficiário 

A reformulação estruturou um conjunto de programas conectados entre si. A lógica é simples e poderosa: cada beneficiário precisa estar no lugar certo, na hora certa, com o profissional certo. 

Idoso Bem Cuidado 

Nasceu da leitura da população. Como 33% dos beneficiários são idosos, fazia sentido um programa específico. Afinal, não se cuida de um idoso da mesma forma que se cuida de um adulto jovem, e é por isso que existem a geriatria e a gerontologia. O programa reconhece essa diferença e organiza o cuidado em torno dela. 

Gestão de doenças crônicas 

Antes com foco quase exclusivo em diabéticos, o programa foi ampliado para as doenças crônicas mais prevalentes. O motivo é a realidade das multimorbidades: um mesmo paciente pode ter diabetes, hipertensão, obesidade, DPOC e dor crônica ao mesmo tempo. 

No modelo fragmentado tradicional, cinco doenças significam cinco ou dez médicos diferentes, cada um cuidando de um pedaço. A proposta é substituir isso por uma equipe de cuidado, com um especialista, um médico de família ou um geriatra coordenando, apoiado por uma equipe multidisciplinar que conversa entre si e acompanha a jornada completa do beneficiário. Para viabilizar essa gestão, a operadora passou a contar com um sistema que indica onde cada paciente deve estar em cada momento. 

Gestão de casos de alto custo 

Voltada aos pacientes mais complexos, como o paciente oncológico ou o paciente acamado em home care, que precisam de múltiplos cuidados simultâneos. Aqui, um médico ordena o cuidado e acompanha de perto para evitar reinternações e o agravamento da doença, reduzindo idas desnecessárias a especialistas e exames sem indicação. O objetivo é cuidar melhor e apoiar a família em um momento delicado. 

Coração Amado 

Mantido por uma razão objetiva: as doenças cardiovasculares são a maior causa de morte no Brasil. O que mudou foi a profundidade do acompanhamento. O programa incorporou a equipe multidisciplinar e a navegação do paciente pelo sistema, com alertas de internação que antes não existiam. Se o paciente interna, a equipe é avisada e acompanha o caso até o pós-alta, com foco em evitar a reinternação, sempre baseada em protocolos e diretrizes clínicas. 

Atendimento domiciliar 

O programa também passou por ajustes, incluindo lembretes ativos de exames para pacientes que precisam de acompanhamento periódico, como quem convive com insuficiência cardíaca ou arritmia e nem sempre percebe a necessidade de repetir determinados exames. 

Ação em Saúde 

O programa de incentivo a hábitos saudáveis estava com o foco disperso. O benefício mais visível, o reembolso da academia, foi mantido, porque o estímulo à atividade física é importante. Mas as regras mudaram. O objetivo deixou de ser apenas reembolsar a atividade física e passou a ser estimular um conjunto de hábitos saudáveis. 

O programa passou a acolher também pacientes com dor crônica, já que não há controle da dor sem movimento, e a acompanhar outros pilares do bem-estar: higiene do sono, ingestão de água e alimentação saudável. Tudo isso organizado em um score de hábitos, no qual quem mantém um estilo de vida mais saudável acessa a bonificação. 

Como o beneficiário participa 

Um ponto que Cintia faz questão de reforçar: os programas são para todos. Os cerca de 4 mil beneficiários da Afrafep se encaixam em algum deles, inclusive quem não tem nenhuma doença e apenas quer melhorar o estilo de vida, que entra pelo Ação em Saúde. 

O acesso é simples. Em qualquer consulta, sessão ou atividade no centro médico, ou mesmo ao liberar um exame ou tirar uma dúvida, o beneficiário pode solicitar a participação na recepção, ou ser encaminhado pelo próprio médico. A partir daí, o setor de saúde preventiva entra em contato, aplica um questionário para entender a saúde de cada pessoa e agenda as próximas etapas. 

Vale um destaque sobre a natureza da mudança de hábitos. Todo mundo sabe o que precisa fazer, a dificuldade está em como fazer e em manter. Por isso, a equipe é treinada para trabalhar a motivação de forma contínua. Cíntia lembra a lógica do livro Hábitos Atômicos: 1% de melhora por dia, somado ao longo do tempo, transforma. Não se muda tudo de uma vez, e o acompanhamento existe justamente para sustentar a mudança quando o entusiasmo inicial passa. 

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Responsabilidade compartilhada: o papel de cada parte 

A mensagem final do seminário, saúde como construção coletiva, ganha contornos práticos na visão de Cíntia. Há muitos papéis envolvidos, e cada um precisa fazer a sua parte para a conta fechar. 

O papel mais importante é o do beneficiário. De nada adianta a operadora investir, coordenar e organizar tudo se ninguém participa. O que se espera dele é que venha, participe e ajude a ser ajudado, contribuindo com ideias e, quando possível, até com voluntariado, palestras e oficinas, que também fazem parte do bem-estar. 

O segundo papel é o do gestor do plano de saúde, que precisa dar as condições para que tudo aconteça e ter um olhar genuinamente estratégico para a saúde preventiva. Não basta criar um programa e considerar a tarefa cumprida. A prevenção precisa estar nas pautas, na comunicação e na estratégia da operadora, até virar cultura. 

O terceiro é o do profissional de saúde, seja prestador ou colaborador, que precisa, nas palavras dela, “respirar prevenção”, estudando, participando das reuniões e trazendo ideias. 

“Estamos todos no mesmo barco. Se a gestão tem estrutura e o paciente ou o profissional não se envolve, não vai dar certo. Relacionamento se constrói com todo mundo junto”, sintetiza. É a definição mais honesta de responsabilidade compartilhada: um trabalho conjunto, no qual nenhuma parte entrega o resultado sozinha. 

O recado que ela deixa ao beneficiário fecha o raciocínio: “Você tem um poder na mão. É você que decide hoje fazer uma escolha. A Afrafep já escolheu, está investindo. Mas a gente precisa de você, que decida por um estilo de vida mais saudável, para o plano se manter sustentável por muitos anos”. 

O que operadoras de saúde podem levar dessa conversa 

O caso Afrafep é específico, mas o método é replicável. Ele mostra o que a AgileCare defende e implementa junto a operadoras de saúde: sustentabilidade não se resolve cortando assistência, e sim usando os recursos de forma inteligente. 

Na prática, isso passa por alguns movimentos que a AgileCare estrutura em suas consultorias: 

  • Diagnóstico da população e da operação antes de qualquer programa, para que as ações sejam assertivas e não genéricas. 
  • Fortalecimento da Atenção Primária e coordenação do cuidado, tirando o paciente da lógica fragmentada. 
  • Uso de tecnologia e dados para monitorar indicadores e apoiar a decisão. 
  • Conexão dessas ações com os indicadores regulatórios, incluindo o IDSS, que é fortalecido quando a assistência é bem coordenada. 

Quando promoção e prevenção deixam de ser obrigação e passam a ser estratégia, quem ganha primeiro é o beneficiário, e a operadora ganha em consequência. Essa é a lógica que sustenta um plano de saúde por muitos anos.


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Sobre a AgileCare 

A AgileCare é uma consultoria especializada em saúde suplementar que conecta gestão, assistência e tecnologia para tornar operadoras, hospitais e clínicas mais eficientes e sustentáveis. Atua da estruturação da atenção primária e de programas de promoção e prevenção à gestão de redes, recuperação de receita e inteligência de dados. 

Sobre a autora, Cintia Dilay 

Cintia Dilay é sócia e COO da AgileCare e atua em gestão de saúde há mais de 20 anos. Enfermeira de formação, construiu sua trajetória da assistência à gestão dentro de operadoras e serviços próprios, com especialização em saúde preventiva e MBA Executivo em Gestão de Saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ao longo da carreira, desenvolveu modelos pioneiros no setor, como planos de saúde voltados ao público idoso e estruturas de pronto atendimento digital. Sua atuação é focada em unir eficiência operacional, coordenação do cuidado e experiência do beneficiário, transformando gestão em resultado real para as operadoras de saúde.

FAQ – Perguntas frequentes sobre promoção e prevenção em saúde suplementar

O que é promoção à saúde?

Promoção à saúde é o conjunto de ações que criam condições para as pessoas viverem de forma mais saudável e com mais qualidade de vida, independentemente de terem fatores de risco ou doenças. Inclui estímulo a hábitos como atividade física, alimentação equilibrada, sono adequado e hidratação.

Qual a diferença entre promoção e prevenção?

A promoção acontece independentemente de fatores de risco e busca manter e ampliar a saúde. A prevenção atua sobre quem já tem algum fator de risco ou doença instalada, com foco em evitar novas doenças e complicações. Os dois conceitos se somam, mas não se substituem.

Como a prevenção contribui para a sustentabilidade de uma operadora?

Uma população mais saudável utiliza o plano com menos internações e exames para tratar doenças e passa a usá-lo mais para manter a saúde. No médio e no longo prazo, isso reduz o custo assistencial e aumenta a previsibilidade financeira, sem perda de qualidade no cuidado.

O que é gestão de doenças crônicas em saúde suplementar?

É o acompanhamento coordenado de beneficiários com doenças crônicas, muitas vezes com multimorbidades. Em vez de vários médicos cuidando de pedaços isolados do paciente, uma equipe de cuidado multidisciplinar acompanha a jornada completa, com apoio de um profissional coordenador e de tecnologia para gestão dos casos.

O que é gestão de casos de alto custo?

É o cuidado dedicado a pacientes clínicos mais complexos, como oncológicos e pacientes em home care. Um médico ordena os cuidados e acompanha de perto para evitar reinternações e procedimentos desnecessários, cuidando do paciente e apoiando a família.

O que a AgileCare faz por operadoras de saúde?

A AgileCare é uma consultoria especializada em saúde suplementar que conecta gestão, assistência e tecnologia. Atua no diagnóstico, na estruturação e na implementação de programas de promoção e prevenção, na coordenação do cuidado, na gestão de rede e contas e na melhoria de indicadores regulatórios, sempre adaptados à realidade de cada operadora.


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